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A Curious World: Literatura de cordel

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Literatura de cordel


Literatura de cordel é um tipo de poema popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome originado em Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. No Nordeste do Brasil, o nome foi herdado (embora o povo chame esta manifestação de folheto), mas a tradição do barbante não perpetuou. Ou seja, o folheto brasileiro poderia ou não estar exposto em barbantes. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.


A história da literatura de cordel começa com o romanceiro luso-holandês da Idade Contemporânea e do Renascimento. O nome cordel está ligado à forma de comercialização desses folhetos em Portugal, onde eram pendurados em cordões, chamados de cordéis. Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de autoria de Gil Vicente (1465-1536). Foram os portugueses que introduziram o cordel no Brasil desde o início da colonização. Na segunda metade do século XIX começaram as impressões de folhetos brasileiros, com suas características próprias. Os temas incluem fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas , temas religiosos, entre muitos outros. As façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de temas dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.


No Brasil, a literatura de cordel é produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Costumava ser vendida em mercados e feiras pelos próprios autores. Hoje também se faz presente em outros Estados, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O cordel hoje é vendido em feiras culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.


Os poetas Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959) estão entre os principais autores do passado.


Todavia, este tipo de literatura apresenta vários aspectos interessantes e dignos de destaque:


As suas gravuras, chamadas xilogravuras, representam um importante espólio do imaginário popular;


Pelo fato de funcionar como divulgadora da arte do cotidiano, das tradições populares e dos autores locais (lembre-se a vitalidade deste gênero ainda no nordeste do Brasil), a literatura de cordel é de inestimável importância na manutenção das identidades locais e das tradições literárias regionais, contribuindo para a perpetuação do folclore brasileiro;


Pelo fato de poderem ser lidas em sessões públicas e de atingirem um número elevado de exemplares distribuídos, ajudam na disseminação de hábitos de leitura e lutam contra o analfabetismo;


A tipologia de assuntos que cobrem, crítica social e política e textos de opinião, elevam a literatura de cordel ao estandarte de obras de teor didático e educativo.


Poética


Quadra


Estrofe de quatro versos. A quadra iniciou o cordel, mas hoje não é mais utilizada pelos cordelistas. Porém as estrofes de quatro versos ainda são muito utilizadas em outros estilos de poesia sertaneja, como a matuta, a caipira, a embolada, entre outros.


A quadra é mais usada com sete sílabas. Obrigatoriamente tem que haver rima em dois versos (linhas). Cada poeta tem seu estilo. Um usa rimar a segunda com a quarta. Exemplo:


Minha terra tem palmeiras


Onde canta o sabiá (2)


As aves que aqui gorjeiam


Não gorjeiam como lá (4).


Outro prefere rimar todas as linhas, alternando ou saltando. Pode ser a primeira com a terceira e a segunda com a quarta, ou a primeira com a quarta e a segunda com a terceira. Vejamos estes exemplos de Zé da Luz: (ABAB ou ABBA)


E nesta constante lida


Na luta de vida e morte


O sertão é a própria vida


Do sertanejo do Norte


Três muié, três irimã,


Três cachorra da mulesta


Eu vi nun dia de festa


No lugar Puxinanã.


Sextilha


É a mais conhecida. Estrofe ou estância de seis versos. Estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados; verso de seis pés, colcheia, repente. Estilo muito usado nas cantorias, onde os cantadores fazem alusão a qualquer tema ou evento e usando o ritmo de baião. Exemplo:


Quem inventou esse "S"


Com que se escreve saudade


Foi o mesmo que inventou


O "F" da falsidade


E o mesmo que fez o "I"


Da minha infelicidade


Septilha


Estrofe (rara) de sete versos; setena (de sete em sete). Estilo muito usado por Zé Limeira, o Poeta do Absurdo.


Eu me chamo Zé Limeira


Da Paraiba falada


Cantando nas escrituras


Saudando o pai da coaiada


A lua branca alumia


Jesus, Jose e Maria


Três anjos na farinhada.


Napoleão era um


Bom capitão de navio


Sofria de tosse braba


No tempo que era sadio,


Foi poeta e demagogo


Numa coivara de fogo


Morreu tremendo de frio.


Na septilha usa-se o estilo de rimar os segundo, quarto e sétimo versos e o quinto com o sexto, podendo deixar livres o primeiro e o terceiro.


Oitava


Estrofe ou estância (grupo de versos que apresentam, comumente, sentido completo) de oito versos: oito-pés-em-quadrão. Oitavas-a-quadrão. Como o nome já sugere, a oitava é composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta usa rimar a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima.


Quadrão


Oitava na poesia popular, cantada, na qual os três primeiros versos rimam entre si, o quarto com o oitavo, e o quinto, o sexto e o sétimo também entre si.


Todas as estrofes são encerradas com o verso: Nos oito pés a quadrão. Vejamos versos de uma contaria entre José Gonçalves e Zé Limeira: - (AAABBCCB)


Gonçalves:


Eu canto com Zé Limeira


Rei dos vates do Teixeira


Nesta noite prazenteira


Da lua sob o clarão


Sentindo no coração


A alegria deste canto *


Por isso é que eu canto tanto *


NOS OITO PÉS A QUADRÃO


Limeira:


Eu sou Zé Limeira e tanto


Cantando por todo canto


Frei Damião já é santo


Dizendo a santa missão


Espinhaço e gangão


Batata de fim de rama *


Remédio de velho é cama *


NOS OITO PÉS A QUADRÃO.


Décima


Estrofe de dez versos, com dez ou sete sílabas, cujo esquema rimático é, mais comumente, ABBAACCDDC, empregada sobretudo na glosa dos motes, conquanto se use igualmente nas pelejas e, com menos frequência, no corpo dos romances.


Geralmente nas pelejas é dado um mote para que os violeiros se desdobrem sobre o mesmo. Vejamos e exemplo com José Alves Sobrinho e Zé Limeira:




  • Mote:

    VOCÊ HOJE ME PAGA O QUE TEM FEITO


    COM OS POETAS MAIS FRACOS DO QUE EU.



  • Sobrinho:

    Vou lhe avisar agora Zé Limeira <A


    Dizem que quem avisa amigo é >B


    Vou lhe amarrar agora a mão e o pé >B


    E lhe atirar naquela capoeira <A


    Pra você não dizer tanta besteira <A


    Nesta noite em que Deus nos acolheu >C


    Você hoje se esquece que nasceu >C


    E se lembra que eu sou bom e perfeito >D


    Você hoje me paga o que tem feito >D


    Com os poetas mais fracos do que eu. >C



  • Zé Limeira:

    Mais de trinta da sua qualistria


    Não me faz eu correr nem ter sobrosso


    Eu agarro a tacaca no pescoço


    E carrego pra minha freguesia


    Viva João, viva Zé, viva Maria


    Viva a lua que o rato não lambeu


    Viva o rato que a lua não roeu


    Zé Limeira só canta desse jeito


    Você hoje me paga o que tem feito


    Com os poetas mais fracos do que eu.


Galope à beira-mar


Estrofe de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica, e que finda com o verso "cantando galope na beira do mar" ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra "mar".


Às vezes, porém, o primeiro, o segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é "meu galope à beira-mar". É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas.




  • Sobrinho:

    Provo que eu sou navegador romântico


    Deixando o sertão para ir ao mirífico


    Mar que tanto adoro e que é o Pacífico


    Entrando depois pelas águas do Atlântico


    E nesse passeio de rumo oceânico


    Eu quero nos mares viver e sonhar


    Bonitas sereias desejo pescar


    Trazê-las na mão pra Raimundo Rolim


    Pra mim e pra ele, pra ele e pra mim


    Cantando galope na beira do mar.



  • Limeira:

    Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato


    Capando carneiro no cerco do bode


    Não gosto de feme que vai no pagode


    O gato fareja no rastro do rato


    Carcaça de besta, suvaco de pato


    Jumento, raposa, cancão e preá


    Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará


    Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão


    Dom Pedro Segundo de sela e gibão


    Cantando galope na beira do mar.


Martelo


Estrofe composta de decassílabos, muito usada nos versos heroicos ou mais satíricos, nos desafios. Os martelos mais empregados são o gabinete e o agalopado.


Martelo agalopado - Estrofe de dez versos decassílabos, de toada violenta, improvisada pelos cantadores sertanejos nos seus desafios.


Martelo de seis pés, galope - Estrofe de seis versos decassilábicos. Também se diz apenas agalopado.


Redondilha



  • Antigamente, quadra de versos de sete sílabas, na qual rimava o primeiro com o quarto e o segundo com o terceiro, seguindo o esquema abba.

  • Hoje, verso de cinco ou de sete sílabas, respectivamente redondilha menor e redondilha maior.

Carretilha


Literatura popular brasileira - Décima de redondilhas menores rimadas na mesma disposição da décima clássica; miudinha, parcela, parcela-de-dez.

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